O seu efeito em mim

 

TUM.
Não sei começar
Sinceramente
Não sei quando começou.

Perdi o que bateu
Admito
Mas ouvi.
Senti?

Ouvisenti aquele TUM,
Barulho baixo tão alto
Que fez baixo todo o resto.
Pequeno.

Como veio?
Porque veio?
Vem mesmo a ser importante?
Vêem?

Veio
Veio véio
Veio vindo
Mas veio e foi bem vindo.

Alojou
Confundiu
Esquentou
Incomodou

Acomodei
Pensei
Abracei
Aninhei

Como pode um broto
Já ser flor tão bela
Raízes tão fundas
Aroma tão doce?

Eu não queria jogar
Você não queria jogar
Eu apostei tudo
Ganhei por não jogar

Plantou a lua no meu céu
Mesmo sendo tão cheia de sóis
Sóis vossos
Tão nossos na vila dos lobos.

Hoje eu rio do que não podia ver
Estava nos seus olhos
Estava a lua
Dentro do sol que é você

Como a natureza veio
Veio como astro
Veio como fenômeno
Veio como um vulcão

De repente fez forte o que era fraco
Quebrou o que era duro
Esquentou o que era frio
Fez do avesso o certo

Mais uma morte em vida
Mais um nascimento em morte
Mais uma vida em frente
Mais vida na minha vida

É onomatopeia
É certeza na dúvida
É palavra nova
É questionamento

É natureza
É ciclo desconstruído
É tabu derrubado
É banca quebrada

É escrever de novo
É escrever o novo
É viver de novo
É querer te ver de novo

Não sei começar
Não sei quando começou
Não sei terminar
Porque não quero que acabe

O seu efeito em mim
Só é tão forte
Porque mim
Hoje é para você.

Fagulha

Lembro das diversas vezes em que levantei da minha cadeira no escritório com a cabeça cheia e o coração apertado.

Era uma sensação estranha, como se eu perdesse a maioria dos sentidos, não sentia meu corpo, não enxergava meu caminho.

Não ouvia som algum.

Meu cérebro colocava todas as minhas funções em um tipo de piloto automático.

Ia pra copa e bebia água sem ter sede.

Nessas horas eu gostaria de ter o hábito de fumar.

Na falta de um vício aceitável no ambiente coorporativo e na inexistência de tempo hábil para escrever, passava alguns generosos minutos desligado.

Não pensava no ocorrido, era um tempo em que eu digeria sem realmente notar o processo.

Eu só, por falta de uma palavra melhor, absorvia.

O que se seguia era um sentimento muito tênue, que se dividia entre raiva e tristeza.

Hoje vejo que era tristeza, mas como homem, não gosto de chorar. Sou obrigado a agüentar no mínimo, o máximo que puder.

Meu ódio era a voz da minha tristeza.

Decepção.

Depois eu pensava em como driblar a situação, como fingir que nada aconteceu.

O método principal era o de se enganar.

Negava, procurava outro ponto de vista ou a ótica que fosse conveniente, a ótica que eu queria, a sua.

Mas isso não ajudava realmente.

Isso me anula.

Eu passo a inexistir, ou simplesmente, existir por algo, e não por mim.

A raiva misturada com a tristeza se convertia em agonia, pura e derradeira agonia.

Segundos, minutos, horas.

Esperando.

Tudo culminava em uma explosão.

Discussão, xingamentos, agressividade.

A verdade que dói mais quando sai da garganta do que quando entra no ouvido.

Ela sai do mar de fogo do estômago rasgando a garganta, deixa o gosto vil na boca, e um veneno que impregna o ar.

A verdade que você não quer contar, não pelo outro, mas por você.

Manter uma coisa que não pode ser mantida, esconder a verdade, parece que é para agradar o outro, mas não, é o egoísmo na sua forma mais nociva.

O egoísmo que te corrói.

Anos foram perdidos, tenho noção disso, por mais que me doa admitir.

Perdi o foco, desandei em todos os aspectos da minha vida.

Meus planos foram esquecidos, meus sonhos mudados.

É como se fosse possível enxergar uma vida, quase materializada e vê-la se extinguindo, aos poucos.

Uma fagulha do que poderia ter sido um sol.

E isso ficava extremamente palpável quando eu me levantava sem sentidos.

Sem sentir meus pés tocando no chão.

Não posso colocar isso como um recomeço.

Recomeço remete ao retrocesso e partir do zero, como feito anteriormente.

Eu passei no zero no sentido errado, entrei na escala negativa da minha existência.

Sujo, imoral, descrente e principalmente miserável.

Valores deturpados pelo rancor e o ódio como combustível de cada pequena ação.

Dessa vez peguei no tranco.

Em cerca de um mês de cabeça clara e foco, consegui realizar um dos sonhos que sempre tive. Um sonho tão simples, que hoje, com praticamente os mesmos recursos de antes, foi tão fácil alcançar.

Isso acaba mudando a cabeça, muda a forma de enxergar.

A vida de joga pra baixo, milhares de vezes. Te coloca no chão.

Mas ela não te segura lá.

Ela não pisa em você, ela nunca, nunca te impede de levantar.

Por mais auto-ajuda e clichê que soe, com uma clareza que nunca tinha desfrutado antes, está claro que eu posso me levantar e que isso só depende de mim.

Ela pode me bater de novo, mas ela não pode me impedir de me levantar.

Pode vir a dor que for, em intensidade e força incomensuráveis, mas você tem como levantar.

Você levanta com a cabeça, levanta com a vontade.

Mas tem que se manter em pé, e não é fácil.

Talvez em filmes seja fácil, mas em primeira pessoa, o bicho pega.

Não lembro a última vez que levantei sem sentidos, mas ainda lembro o quanto não vivi aqueles dias.

Hoje, quando encosto minha cabeça no travesseiro, escolho no que pensar.

No livro que eu estou escrevendo, e que prazer é ver cada capítulo aparecendo quase como se a história fosse contada pra mim, como se eu fosse um expectador.

Penso nos planos que tenho para o futuro, e avalio os riscos dos meus investimentos monetários (baixos, bem baixos).

É bom lembrar das risadas que dei ao longo do dia, tanto quanto é ruim lembrar das coisas ruins que apareceram em meu caminho.

Mas eu escolho.

Eu escolho.

Escolho o que pensar, para onde olhar, o que fazer e por que fazer.

Eu escolho.

Escolho por que sou meu dono mais uma vez, como já havia sido e ao mesmo tempo tido uma vontade tão inocente de não ser.

E com prazer vou escolhendo meus passos.

Com o egoísmo saudável de quem quer o próprio bem vou agindo.

Quando olho pra frente, não vejo mais o futuro, aliás, o futuro perdeu toda sua significância.

Feliz hoje, pelo simples fato de poder ser, se eu quiser, claro.

Prostitutas do meu País

O barulho da impressora, telefone tocando, conversa ao fundo.

Obrigações anotadas em um bloco de papel reciclado assegurando o ISO-nove-mil-e-finjo-que-me-importo. Anotações corroendo a cabeça, não menos importantes, apenas mais porcamente guardadas.

Quem pode confiar só em si mesmo nessa vida?

Gente que não sabe seu lugar, gente que acha que sabe e gente que não se importa.

Lembro de ter acordado já pensando na hora de dormir, mas esse barulho, essa impressora…

Existe algo de hipnótico nesse lugar, não há tempo, nunca há, movimentos mecânicos, atitudes automáticas, pensamentos ensinados, impostos e adestrados, porém nunca questionados.

Na corrida mensal em que o salário desagradável é o grande prêmio, estapeamo-nos ao mais belo estilo pseudo-católico, “sem olhar a quem”.

Sem perceber clamamos pelo fim do mês, não vemos a hora da faculdade acabar e torcemos pra que chegue aquela última parcela do carro.

Sem perceber, a vida passa rápido, tão rápido quando queremos.

E no fim da vida não te pagam em dinheiro.

Ela não é um mês.

Nessa realidade robótica que não é exclusividade de ninguém, trocamos/vendemos/perdemos nosso tempo/corpo/vida por um salário/satisfação/sucesso tão pequeno/falso/vão.

Porque Ser

Eu sei que tenho defeitos, como também sei que todas as pessoas tem.

Perco a cabeça com muita facilidade, julgo os outros, algumas vezes sou mesquinho, falo o que não devo falar, isso para citar apenas alguns.

As pessoas olham meus defeitos e minhas qualidades e dizem que eu devo mudar isso ou aquilo, que não devo mais fazer tal coisa ou sentir de tal forma.

Mas o que é o certo? É certo mudar quem eu sou para não afastar os outros?

É isso que devo fazer? Negar o que sinto para seguir os padrões estabelecidos no que se entende por ser uma boa pessoa?

Não sei se poderia engolir a ira que já me fez quebrar a mão, ou as lágrimas que já teimaram em rolar.

Não, o simples fato de ser o certo a se fazer não me proporcionaria força necessária para tal façanha.

A reformulação do indivíduo deveria partir do “por que ser” e não do “como ser”.

Mudar a forma como se vê as coisas, e não simplesmente mudar o nome dado ao que se enxerga,  fazer a pessoa que vê um mendigo enxergar um homem e não simplesmente repetir em sua cabeça “morador de rua”.

Preciso deixar de ver as agruras que a vida me traz  como frutos de um destino perverso e ver em cada uma dessas pedras a chance de aprender e evoluir.

No lugar de pensar em uma faculdade como sendo 4 anos de trabalho duro, pensar que serão 4 anos conhecendo novas pessoas e adicionando mais e mais ao meu mundo.

As pessoas que me causaram tanto mal são como todas as outras, nós mesmos, todos já seguramos o machado do carrasco em nossas mãos, não existe uma pessoa sequer que não tenha sido um grande desgraçado pelo menos uma vez.

Nos queixamos da vida e deixamos o lado ruim sobrepujar todo o resto, mas ninguém faz isso por que quer, e isso as vezes acontece com as pessoas mais improváveis.

É impossível dizer por que uma pessoa é do jeito que é, as vezes elas simplesmente são, e ponto.

Não consigo e jamais poderei escolher quem sou eu, o máximo que posso fazer é tentar mudar a minha forma de ver o mundo e torcer para que esse novo mundo me mude.

Mas eu não sei nem por onde começar.

Sentimentos velhos em uma vida nova

Fazia tempo que eu não tinha um dia tão agradável.

Considero vários fatores como causadores dessa alegria repentina, uns mais, outros menos.

O primeiro que me vem a cabeça é o fato de ter saído de São Paulo. Verdade que não fui longe, aliás, estava bem perto, mas não estava aqui.

Vi pessoas que não via a muito tempo, fui a lugares igualmente nostálgicos e vivi coisas que não lembrava como eram.

Não fiz nada de incrível, nem nada que eu já não tivesse feito diversas vezes, então por que o resultado, por que o efeito em mim foi tão diferente?

Escrever sempre me ajuda a entender.

Não é o que eu faço, onde faço ou com quem estou.

Não importa se está chovendo, se está quente demais ou se eu tive que pegar 2 horas de ônibus para ir e duas para voltar.

Mesmo faltando cerveja e tempo, eu sei por que tive um dia tão bom.

Prometi que só escreveria de novo nesse caderno quando estivesse feliz e estou cumprindo.

Cá estou eu novamente correndo atrás da minha moto, trabalhando em um novo lugar, pretendendo comer muito no carnaval e beber muito no reveillon, com os mesmos planos triviais de sempre para o próximo ano e com a mesma vidinha besta que sempre tive.

Qual a diferença então?

Sei lá, está chovendo, o metrô estará cheio, mas estou feliz.

Acho que cada coisa leva um tempo para ser digerida, e sozinho, descobri que sou muito mais forte do que já imaginei.

Obrigado aos que tiveram paciência de esperar, aos que estiveram comigo me aconselhando e visando meu bem, a quem foi amigo todas as horas e quem mostrou que eu era importante de verdade.

Desejo a todos que fizeram questão de estar em minha vida e que me quiseram nas delas um natal muito bom, um ano novo cheio de conquistas e principalmente, espero todos vocês para mais um copo de cerveja.

E pode ser até Bavaria.

Ao mar outra vez

Fui ao mar mais uma vez.

Dessa vez sem a pressão do reveillon, mas carregando ainda um resquício das reflexões e ponderações do meu aniversário.

O que quero, o que não quero, e o que não quero querer.

O que fiz, o que deixei de fazer, e o que fiz sem saber.

Sentado na areia, peço perdão pela rima.

Definitivamente foi um ano marcante, e por mais que me doa admitir, devo dizer para o meu bem, que foi um dos piores da minha vida.

Em nenhum outro ano me peguei chorando, nunca estive tão desorientado e nunca havia usado a palavra “quebrado” para responder a pergunta “e ai, como você está?”.

– Não amigo, não quero comprar óculos, obrigado.

Já basta esse que uso.

Além da avaliação dos anos passados, aproveitei o mar também para pensar nos vindouros.

Acho melhor dessa vez não planejar as coisas tão matematicamente como sempre faço, não vou separar tudo em tópicos como por exemplo estudo ou emprego. Vou tentar algo mais abrangente, como fazer o que é certo ou então simplesmente voltar a viver.

Não quero mais deixar chances passarem e nem me sentir um desperdício de potencial. Mesmo que pouco.

Vou tentar mais uma vez fazer o certo e dar um jeito no que está me atrapalhando, com a única diferença de que antes tentei por saber que era o que tinha que ser feito, e dessa vez farei por que tenho vontade.

Me despeço do mar mais uma vez, dessa vez lembrando que embora ele pareça sem fim, basta nadar bastante para encontrar areia de novo, e então quem sabe um dia encontrar um outro oceano, que finalmente seja do tamanho da minha vida.

Olho em volta sob o sol, mais uma alma na praia, nem igual nem diferente, só mais uma.

Especial de aniversário.

Sério, eu odeio meu aniversário.

Talvez seja uma aversão a mudanças, o que seria extremamente irônico tendo em vista minha situação atual.

Quem sabe seja medo de ficar mais velho, mas isso também não faria sentido, envelhecemos todo dia, e não só quando completamos mais 1 ano.

Sei tudo que vai acontecer amanhã, da carne-louca ao bolo, das pessoas que eu gostaria que fossem e não vão, e do inverso também.

De alguns presentes eu gostarei,  de outros nem tanto, e não posso esquecer também daqueles que não servirão.

Todos me desejarão felicidades, mesmo os que não desejam realmente.

Terei que me acostumar com minha nova idade e refrear o impulso de dizer que tenho 22 anos, da mesma forma em que o mês sempre virava quando eu já conseguia preencher mecanicamente o cabeçalho da escola.

Sei também que vou me divertir bastante, afinal quando seus amigos se juntam e tomam cerveja, normalmente coisas engraçadas acontecem.

Histórias da escola, de viagens, de barzinhos. Tantas e tantas histórias não combinam com uma vida vazia, com essa sensação de estar deixando algo passar.

Quando paro e analiso friamente, catalogando nessa cabeça neurótica todos os prós e contras do meu aniversário, reparo que estou errado em não gostar dele,  definitivamente existem mais vantagens do que problemas nisso tudo. Até por que, deixando de lado o viés de estar ficando mais velho, só enxergo outra desvantagem.

Refletir.

Refletir mais.

Comparar minha idade com o que conquistei, calcular quanto ainda penso que tenho de tempo e quantas coisas ainda quero.

Pensar no que deixei de viver antes, ou em todas as coisas boas que não voltarão.

Mas o pior de tudo é não saber, não saber o que a vida reserva, o que pode acontecer. As possibilidades são tantas que é mais fácil acertar o resultado da mega sena.

Meu amigo me dizia, com uma sabedoria emprestada de alguém mais velho, que nessa vida a unica certeza que temos é a morte. Agora me resta sentar e esperar que pelo menos tenha bolo de limão na minha festa.

É o meu preferido.